<p>Fernando Pessoa já morreu, mas as cartas de amor continuam bem vivas e tão ridículas, intensas e vulneráveis como sempre. É a partir deste ponto que começa este episódio: entre o amor escrito à mão e o amor deslizado no ecrã; entre envelopes que atravessaram guerras e oceanos e mensagens instantâneas que chegam em segundos… Ou nunca chegam! Este é também, curiosamente, um caso de sucesso no Tinder, da artista <a href="https://www.instagram.com/ana.vieiradecastro/">Ana Vieira de Castro</a>.</p><p>Neste episódio falamos do que acontece <strong>quando o amor acaba</strong>. Do que fazer com um coração partido. Do vazio que fica depois de um final. Ignora-se? Preenche-se com distrações? Apaga-se? Ou transforma-se? Num país onde, só em 2023, <strong>58% dos casamentos terminaram em divórcio</strong>, colocando Portugal no top 10 da União Europeia (<a href="https://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php?title=Marriage_and_divorce_statistics">Eurostat, 2023</a>), percebemos que a dor do fim é mais comum do que gostamos de admitir — mesmo que continuemos a tratá-la como um fracasso individual.</p><p>Os dados mostram que, após uma rutura, <strong>55% das pessoas refugiam-se na música</strong>, <strong>41% na arte, nos livros ou na escrita</strong> e <strong>33% iniciam um novo hobby criativo </strong>(<a href="https://www.eharmony.com/press-and-research/dating-diaries-2023/">Eharmony, 2023</a>). É aqui que entra a história que nos traz hoje: a de uma mulher que, com o coração partido, não apagou o Tinder. Não o usou para esquecer, nem para anestesiar a dor ou colecionar substitutos. Usou-o para olhar. Para ver e ser vista. Transformou a dor em arte e a arte em processo terapêutico.</p><p>A partir de um projeto fotográfico desenvolvido ao longo de um ano, questionamos se o sucesso no amor é um destino… ou uma prática? Se amar bem não será mais parecido com criar: cheio de falhas, revisões, camadas e rasuras, mas feito de intenção e presença. Falamos da diferença entre os ritmos do amor antigo e do amor digital, do tempo que dávamos ao sentimento para se processar e da ansiedade contemporânea em torno da resposta imediata. O que se perdeu? O que se ganhou? Ainda se escreve com o coração?</p><p>Debatemos várias definições de amor: companheirismo, crescimento, perdão com limites, quotidiano; a idealização da pessoa perfeita; a crença na alma gémea entre os mais novos e a convicção dos mais velhos de que o amor se constrói. Percebemos que a maioria das pessoas entra no online dating sem saber o que procura e só pensa nisso depois, muitas vezes à custa do outro. Falamos do uso das apps como máscara para a solidão, da dificuldade (sobretudo masculina!) em falar de emoções fora do digital e da surpresa que é alguém perguntar, num match: “<strong>O que é o amor para ti?</strong>”</p><p>Terminamos com uma ideia simples e radical: <strong>não há prazo de validade para recomeçar</strong>. Não precisamos de estar inteiros para amar, nem certos para acertar. Às vezes, basta estar presente, com a dor, o desejo, connosco e com o outro. Talvez o amor não seja um sucesso que se atinge, mas um gesto que se escolhe repetir. Com intenção. Dia após dia. Camada sobre camada. Porque o amor pode não vir pronto… Mas pode sempre ser criado.</p><p><br></p><p><strong>Projeto:</strong></p><p><a href="https://www.broad.community/blog/2020/7/13/ana-vieira-de-castro-memories-in-lost-time-and-space">Memories Lost in Time and Space</a></p>