Recruta o teu leão!

SEP 14, 202631 MIN

Description

Existe dentro de cada pessoa uma força que precisa aprender a rugir. Oséias apresenta a imagem do Senhor que ruge como um leão, e Sócrates ajuda a compreender algo parecido na alma humana: há o homenzinho da razão, a hidra dos prazeres e o leão do thymos, essa agressividade capaz de defender aquilo que reconhecemos como digno e bom. A razão pode apresentar mil motivos para abandonar um prazer desordenado, enquanto a hidra simplesmente responde: "mas eu quero". É então que o leão pode entrar na luta, dando à razão a força necessária para resistir ao mal e superar os obstáculos que nos afastam do verdadeiro bem. Um episódio vivido por um ex-fuzileiro mostra essa força em ação. Depois de dez semanas duríssimas de treinamento, ele decidiu passar uma noite comendo tudo o que havia evitado. Quando terminou sozinho um enorme pote de manteiga de amendoim e percebeu que ainda pretendia atacar o sorvete, algo dentro dele se revoltou: não queria continuar se comportando daquela maneira. Jogou o sorvete fora, calçou os tênis à meia-noite e correu quinze quilômetros. Não foi um cálculo frio que o fez reagir, mas uma indignação consigo mesmo que colocou todas as suas forças a serviço de uma decisão. São Tomás de Aquino explica que recebemos o apetite irascível justamente para enfrentar dificuldades e resistir ao mal. Às vezes, para vencer uma paixão quente, a razão fria precisa da ajuda de outra paixão bem direcionada. Essa garra pode ser conscientemente mobilizada. Michael Jordan chegou a inventar para si mesmo uma provocação de LaBradford Smith para entrar ainda mais determinado em uma partida. Na vida espiritual não precisamos fabricar inimigos, porque eles já existem: vícios, tentações, preguiça, medo e tudo aquilo que enfraquece nossa busca por Deus. Evágrio Pôntico convidava a imaginar os vícios como Golias diante de Davi, inimigos que precisam ser enfrentados com decisão. Também podemos olhar com franqueza para aquilo em que estamos nos tornando e recuperar o "olho do tigre" de Rocky: não desprezar quem somos, mas recusar com firmeza uma versão acomodada de nós mesmos. Há momentos em que uma queda repetida só começa a ser vencida quando finalmente ficamos inconformados com ela. Mas o thymos cristão não é explosão descontrolada, orgulho nem confiança cega nas próprias forças. Cristo é manso e humilde, mas também sabe falar com firmeza e expulsar os vendedores do Templo; São Paulo enfrenta adversidades, exige seus direitos e segue adiante movido por uma força maior: "Caritas Christi urget nos", o amor de Cristo nos impele. É a caridade que transforma a agressividade em fortaleza, colocando o leão sob a direção da razão e do amor. Ulisses pondera em sua mente e em seu thymos antes de agir; os samurais buscavam dominar a própria ira para canalizá-la com eficácia; São Paulo corre sem perder o rumo. O cristão não precisa necessariamente de menos agressividade, mas de uma agressividade dirigida contra o pecado e tudo aquilo que destrói o bem, começando pelo mal dentro de si. E quando o leão ameaçar escapar do controle, a lembrança de Nossa Senhora pode ser como a ovelha colocada junto ao cavalo bravo: presença mansa que acalma sem retirar a coragem, acompanhando-nos nesta verdadeira guerra de amor. ___________ Referências: Podcast citado a respeito do livro sobre a agressividade: ⁠https://www.artofmanliness.com/charac...⁠ Clóvis de Barros Filho sobre o brio:    • Motivação para estudar (BRIO) | Clóvis de ...   Homero, A odisséia Sobre a imagem do homem, a hidra e o leão: Platão, A república, Livro 9.