/https://img.transistorcdn.com/JbQ6HrQZLlShq8XZrk4BsrH0BKqi02gpn6yhzEXX0ME/rs:fill:0:0:1/w:1400/h:1400/q:60/mb:500000/aHR0cHM6Ly9pbWct/dXBsb2FkLXByb2R1/Y3Rpb24udHJhbnNp/c3Rvci5mbS83ZWMy/ZWRkZTMyNDZmZjkw/MzY5NGNmNzY5M2Mz/MDY5MS5qcGc.jpg)
Consultório de Bolso
Estúdio Prontuário Sonoro
Episódio 8 – Osteoporose: um quadril salvo, e em quem
OCT 1, 202628 MIN
/https://img.transistorcdn.com/JbQ6HrQZLlShq8XZrk4BsrH0BKqi02gpn6yhzEXX0ME/rs:fill:0:0:1/w:1400/h:1400/q:60/mb:500000/aHR0cHM6Ly9pbWct/dXBsb2FkLXByb2R1/Y3Rpb24udHJhbnNp/c3Rvci5mbS83ZWMy/ZWRkZTMyNDZmZjkw/MzY5NGNmNzY5M2Mz/MDY5MS5qcGc.jpg)
Description
Dona Nazaré tem 78 anos, é parda e bateu açaí por 32 anos no Jurunas, em Belém, onde é atendida na Unidade Básica de Saúde Portal da Amazônia. Encostada na parede, mediu 1,52 m: cinco centímetros a menos que em 2015. O pedido de densitometria de 2023 nunca foi marcado. A mãe dela quebrou o quadril aos 78 anos.
O HIP (McClung et al., New England Journal of Medicine, 2001), duplo-cego com placebo de aparência idêntica: 9.331 mulheres na análise, risedronato 2,5 ou 5 mg por dia, três anos, em dois protocolos paralelos — um entrando pela densitometria, outro principalmente por fator de risco que não é do osso.
O que a gente discute:
No ensaio inteiro, fratura de quadril em três anos: 2,8% contra 3,9%, risco relativo 0,7 (0,6–0,9), p = 0,02
O que muda de uma porta para a outra é o que o ensaio consegue afirmar. Pela densitometria, 1,9% contra 3,2%, RR 0,6 (0,4–0,9), p = 0,009 — aqui ele afirma com firmeza. Pela clínica, 4,2% contra 5,1%, RR 0,8 (0,6–1,2), p = 0,35 — aqui ele não conseguiu afirmar
E ninguém comparou os dois grupos entre si: a palavra interação não aparece uma vez no artigo. O intervalo das de 80 contém dentro dele o efeito do ensaio inteiro
E a de 80 anos não é de baixo risco: era 41,6% da amostra e deu 56,5% das fraturas de quadril, 131 de 232. No placebo, quebrou em 5,1% contra 3,9% do ensaio inteiro. É a mulher de maior risco do estudo
Risco de viés alto, e de um domínio só: o plano de análise. Ele previa comparar cada dose com o placebo, e no meio do caminho as duas foram agrupadas — o significativo só existe agrupado, e eles assumiram por escrito. Pago pelo fabricante do remédio
O número para tratar tem endereço: em três anos, ele vai de cerca de 90 no ensaio inteiro para 77 entre as que tinham o osso medido e ruim, e para 29 numa célula daquela tabela — as que também já tinham uma vértebra quebrada. O 29 não é um estrato sorteado
A camada que só existe daqui: o remédio do ensaio é o mais difícil de conseguir dos dois bisfosfonatos orais que o protocolo brasileiro põe na frente. O que sai de graça na farmácia da própria unidade é o alendronato, que tem o ensaio dele
E o 77 tem endereço estreito: para entrar no grupo de onde ele saiu, o osso tinha que estar pior que −3 — no Brasil, osteoporose já começa em −2,5. O osso da Dona Nazaré ninguém mediu ainda, o que não quer dizer que não funcione
Para levar no bolso: não foi o remédio que ficou melhor de noventa para vinte e nove. Foi o que se sabia sobre a mulher que ia tomar.
Na terça: ela toma omeprazol todo dia há uns oito anos, desde uma gastrite que ela nunca mais investigou. E ela pergunta: isso faz mal, e eu tiro?

